O documentário do sueco Peter Cohen traça a trajetória do nazismo em paralelo com os conceitos de arte de seu líder, Adolf Hitler. Ao assistir o filme, é fácil perceber a megalomania de Hitler a partir de seu ideal artístico, baseado na pura estética inspiradora do homem do III Reich. A concepção de beleza entrelaça-se com a do homem saudável e limpo, enquanto a feiúra é digna apenas de aniquilação. Nos esboços de construções grandiosas estava presente o ideal nazista de embelezamento do mundo, inspirado na arquitetura da antiguidade clássica, uma das fixações de Hitler. O novo homem alemão seria o mais belo e o mais saudável, enquanto Berlim, o centro do mundo, seria a capital com a mais bela e grandiosa arquitetura de todos os tempos.
Todas as formas de arte foram usadas como propaganda do estilo de vida alemão que se pretendia criar, mas o cinema merece especial destaque, principalmente no que concerne à necessidade de limpeza da pátria e à “solução final”. O filme “Vítimas do Passado”, de 1937 é um dos muitos sobre essa necessidade de limpar a Alemanha dos doentes físicos e mentais, que, se mantidos como cidadãos, só ajudariam a alimentar um processo que levaria a raça ariana a sucumbir. Além dos filmes propagandistas, a arte moderna foi usada como vitrine de todas as deformações e distorções dos valores de beleza humana, sendo organizadas exposições desta “arte degenerada”, reunindo obras de vanguarda, adquiridas ainda nos anos 20 e vistas agora como “degeneração cultural” e “presságio do destino”, caso atitudes drásticas não fossem tomadas. Associadas à arte bolchevique e judaica, a arte moderna servia como exemplo do que deveria ser combatido: as compleições deformadas, os comunistas e os judeus. Em contrapartida, a exaltação de corpos perfeitos, associados sempre à boa saúde, era feita pelas esculturas de inspiração grega.
Com essa idéia em mente, até o início da guerra, Hitler se preocupou em formular o conceito de arte de acordo com o seu próprio e em expor a “nova e genuína arte alemã”. Dedicou-se a trabalhos arquitetônicos de construção monumental, como a Chancelaria e o Palácio do Fürher e sedimentou através do “Bureau da beleza do trabalho” o local de trabalho como limpo e funcional, ressaltando a limpeza do ambiente e das pessoas (para ele, o despertar estético seria o princípio do fim das lutas de classe, visto que um povo bonito e saudável não lutaria entre si, e sim por um objetivo comum).
Com a invasão da Polônia e o início da guerra se deu o princípio do programa da eutanásia. A análise de pacientes era feita em cima de uma ficha onde constavam raça, religião e saúde física e mental. Os médicos, todos pertencentes ao partido nazista, eram os juízes que decidiam quem seria levado para as novas câmaras de monóxido de carbono, normalmente aqueles considerados inúteis até para trabalhar. Foram ministrados cursos especiais de medicina nazista, pois o objetivo médico agora não era cuidar de um paciente, e sim analisar quem poderia ou não sobreviver em meio a essa reorganização da pátria. Tudo pelo bem maior: a beleza e saúde da Nova Alemanha. A estética perfeita poderia ser conquistada através da violência, pois se era preciso destruir para, posteriormente, reconstruir, isso deveria ser feito.
Toda a Europa era cenário de uma remodelagem arquitetônica e artística. A arte da guerra pintava não só seus horrores, mas também suas glórias A invasão da Bélgica, da Holanda e da França trouxe novas apropriações de obras de arte para a Alemanha. Paris era modelo para se reprojetar Berlim, tarefa do arquiteto Albert Speer. A nova capital mundial teria um Arco do Triunfo duas vezes maior, um Centro Cultural gigantesco, uma arquitetura inigualável. Esse projeto andava de mãos dadas com todas as ideologias de grandeza do nazismo. Tudo deveria ser muito grandioso, do homem às construções. Em meio a tudo isso, assistimos ao assassínio em massa em câmaras e fornos projetados longe dos centros urbanos e dos olhos da raça pura. A construção desse mundo perfeito custou à humanidade milhões de vidas e o eterno medo da capacidade do homem de destruição. Mesmo quando o objetivo inicial é a construção.
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